alguma coisa sobre limite

 Vez em quando eu lembro da existência do bloco de notas do celular. Às vezes é pra anotar alguma coisa mesmo, às vezes para rabiscar. Desta vez é para desabafar (?). Nos últimos tempos, meus pensamentos e dores são compartilhados na terapia, deixando um vazio enorme na minha escrita. Quem sou eu sem um texto profundo sobre alguma reflexão barata? Então, venho aqui, tímida, tentar recuperar esse espaço.

A ansiedade tem me acompanhado nos dias que passam nessa semana. Por mais que haja todo um movimento sobre amor próprio e estabelecimento de limites, poucos falam sobre o sofrimento que é passar por isso. Quando você entra na jornada de se conhecer e aprimorar, você encara a situação, a qual você descobre que é o causador da maioria dos seus problemas e também é a chave para soluciona-los. 

Você entra em uma espiral de culpa, crise existencial, autocrítica e vitimização. Nada e tudo fazem sentido. A morte e o renascimento se tornam um. Se você entende tarot, sabe a importância do arcano 13, também do 16. Quantas vezes não morri para renascer em uma versão ligeiramente melhor? Desde 2018 estou nesse ciclo. Algumas mortes foram maiores que outras. Alguns momentos não precisei morrer. No entanto, os maiores nascimentos foram após grandes rupturas.

Nesse momento de restabelecimento, você começa a analisar o que te atingiu e porque você deixou isso acontecer. E como é difícil! É insuportável aceitar que você se machucou por própria culpa. Quão trouxa você é por se atingir? O processo de aceitação é puxado e resulta em ações protetivas. 

Dá início a uma nova era. Novos limites são criados, novas cicatrizes surgem. Surge uma necessidade de fazer tudo que não foi feito e modificar todas atitudes negativas. Esse processo é bom, porém traiçoeiro. Se não bem executado, ele vira egocentrismo e autoproteção excessiva, talvez um certo narcisismo. 

Se antes você não se amava, agora você se ama demais ao ponto de não deixar os outros pisarem mais em você. O que tem de errado? Uma alternativa bem comum é usar o valor próprio como desculpa para ter prazer eterno e não ter que lidar com as consequências das suas ações. Você não precisa mais se preocupar em chatear as pessoas por não fazer o que elas querem, na hora que elas querem. Você também ignora as reclamações delas sobre suas atitudes negativas que recaem nelas. A única prioridade é você, já que você é a pessoa mais importante da sua vida.

O segundo momento é depois da queda do narcisismo. Quando você aprende a dosar o amor próprio e o limite. É importante ressaltar que nas relações com qualquer pessoa, existem três sujeitos: você, a pessoa e vocês dois ou mais. O momento de ponderação é quando você consegue pensar como e se suas escolhas afetam apenas você, se atingem o outro ou a relação. Também é a hora onde você delimita a fronteira do seu mundo com o externo. Você já sabe onde dói, o que não pode ser flexibilizado ou cedido e apresenta de forma didática, explicando os motivos, quando há necessidade.

Contudo, existem situações onde você se questiona se seus limites estão certos ou se você está enlouquecendo. Acaba acontecendo quando você lida com alguém sem limites. No sentido de a pessoa não saber traçar as próprias linhas, deixar os outros atravessarem seus sentimentos. Esse tipo de pessoa não se respeita, por conseguinte, não te respeita. Então quando você estabelece que certa atitude não é legal, ela acha ruim. Ela não sabe lidar com o "não". Ninguém ensinou ela antes.

Depois de todo o contexto, o motivo da minha ansiedade é essa relação de delimitar e não ser respeitada. É muito difícil lidar com isso porque você se questiona se está sendo razoável, se não está cobrando algo absurdo. Mas é absurdo cobrar algo que deveria ser o básico? Refletindo muito sobre o assunto, tentando ver se estou errada por sentir esse desconforto, ter opiniões sinceras e externas, só chego a conclusão que eu preciso dos limites e do respeito. Estou frustrada, com nó na garganta, mas não consigo chorar porque não estou triste. Só estou incomodada por ter meu espaço perturbado.

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