Já se colocou no lugar do outro hoje?
As pessoas dizem não ter preconceito, os espaços públicos se
dizem acessíveis a todos e você pensa que realmente consegue se colocar no
lugar dos outros. A gente não tem muita noção de como é lidar com limitações
que nos encaixam como “diferentes, especiais” até passar por elas. Mas ainda
sim, um momento de dificuldade não serve como padrão para uma vida inteira.
Considerando isso, vamos nos colocar na posição de um cadeirante por algumas
horas porque machucamos o joelho e estamos mancando demais pra andar
tranquilamente no shopping.
A primeira sensação é que você está errada por usar a
cadeira de rodas, já que consegue andar, apesar de sentir dor e mancar. Depois
vem os olhares das pessoas que passam de dó, raiva e certa indignação
(aparentemente acham que você é uma impostora). O olhar mais descarado é o de
criança; claramente é curiosidade, mas dá um certo pavor ter os olhos vidrados
em você, como se fosse um bicho de sete cabeças. Você percebe que não é tão
fácil assim “dirigir” a cadeira, exige muita força nos braços e entendimento de
quais movimentos te levam ao lugar que você quer. Nem sempre a cadeira que te
arranjam está alinhada, fazendo que você ande sempre em curva quando quer ir
reto.
A segunda impressão é que nada é feito para um cadeirante. O
espaçamento entre os móveis e baias das lojas e praça de alimentação é
extremamente justo, o que dificulta a movimentação de um inexperiente. Os
corredores, apesar de largos, sempre estão lotados de pessoas e ai de você
querer passar por entre elas. Elas ou não dão espaço ou quando dão, fazem de
maneira que você se sente um encosto. Muitas caras feias são direcionadas a
você, juntamente com caras de dó e piedade como se você fosse incapaz de fazer
qualquer coisa sozinho. (Queridos, só não consigo andar). Fazer coisas do
cotidiano como comprar comida ou jogar no fliperama tem uma nova perspectiva.
Os atendentes sentem muito dó de você, o que é entendível, mas meio incômodo, fora
a parte onde você não sabe como carregar a bandeja e rodar a roda ao mesmo
tempo. No fliperama, senti como se os jogos não fossem feitos para mim porque a
maioria não permitia o acesso da cadeira, além das pessoas te olhando como se
você não pudesse estar lá. Novamente, as coisas não são acessíveis. É difícil se
movimentar sozinha em algumas partes das lojas porque o espaço é limitado ou tem
produtos frágeis no meio do caminho. Se você quiser ir para outro andar do
shopping, precisa pegar o elevador, que fica longe ao ponto de ser difícil de
achar ele.
Agora estamos sem a cadeira, mas ainda não movimentamos o
joelho e faz com que tudo seja muito longe. Já falei em como os lugares não são
acessíveis? Parece que toda instituição tem apenas escadas. Ok, existem algumas
rampas, mas elas ou são em uma elevação muito ruim ou te levam para lugares
isolados onde poucas pessoas passam e que não te levam para locais úteis (na
minha faculdade pelo menos não achei maneira de ir até a direção sem ser pelas
escadas). Fora as instituições, os arredores também não são lá essas coisas,
visto que as calçadas são ou malfeitas ou muito íngremes ou degradas. Quase não
tem rampas, fazendo com que você tenha que usar as sarjetas super altas.
Toda essa experiência me fez perceber que eu não era tão
empata quanto achava que era. Não fazia ideia de como um passeio no shopping pode
ser dificultado por várias coisinhas e como as pessoas são sem educação e
egoístas. Agora consigo entender melhor a vida de uma pessoa com deficiência,
em certos aspectos, mas também não posso falar que sou a miss empatia, visto
que passei só algumas horas assim. Acredito que todos deveriam fazer um
exercício de se colocar no lugar de deficientes por um dia para mudar seu ponto
de vista e sua experiência. Espero que as pessoas com deficiência não se
ofendam por alguma coisa que escrevi e que esteja errada e não percebi. Caso
fiquem, quero saber para melhorar.
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